sexta-feira, 17 de agosto de 2012

As empresas não conseguem contratar profissionais qualificados por causa dos baixos salários ou os baixos salários não atraem os profissionais qualificados?


Ouvimos constantemente na mídia sobre o apagão de mão-de-obra qualificada no Brasil. Afinal, o que um profissional precisa para ser considerado qualificado para o mercado de trabalho?

Falar inglês e mandarim fluentemente, ter experiência profissional, ter diversos títulos profissionalizantes e ter concluído a graduação em uma boa universidade não são requisitos básicos exigidos em todos os setores da economia.  O saber-fazer é o que torna o profissional qualificado. De nada adianta ter inúmeros títulos, ter conhecimento técnico, falar fluentemente outra língua e ter estudado em uma instituição de renome se na prática o profissional não apresenta bons resultados para a empresa. 

Empregado e empregador possuem conceitos divergentes de qualificação profissional. Para o empregado quanto maior tempo de estudo e mais investimentos em curso ele tiver mais qualificado ele acha que é. Já para as empresas quanto maior tempo o profissional tiver exercido determinada atividade mais qualificado ele será. Para as empresas os pré-requisitos de qualificação resumem-se a experiência, técnica (conhecimento e execução), resultado e cursos específicos na área que você atua ou vem atuando ao longo da sua carreira profissional. Por exemplo, se você atua há anos no setor contábil, mas possui especialização em logística dificilmente uma empresa lhe contratará para a área de logística, pois para a empresa você não tem qualificação para atuar na área de logística. 

Nas últimas décadas cresceu o número de brasileiros com ensino superior. È cada vez maior o número de recém-formados e sem experiência no mercado brasileiro. Uma pesquisa aponta que a principal queixa das empresas referem-se à falta de preparo técnico e a pouca experiência profissional. Por outro lado, as universidades no Brasil, de modo geral têm como objetivo preparar profissionais para a carreira de base intelectual (ciência e pesquisa). O culto ao conhecimento prático e especializado tem gerado o descrédito nas instituições de conhecimento científico. A divergência entre teoria e prática reflete a máxima popular do ensino brasileiro que diz ''Quem sabe faz quem não sabe ensina''. O ensino brasileiro vive um dilema entre o conhecimento geral e conhecimento específico. Diante desse contexto, percebemos que as universidades brasileiras nem formam profissionais para área de ciência e pesquisa muito menos prepara o profissional para atender as exigências do mercado. 

As empresas exigem que os trabalhadores sejam qualificados, mas nem sempre as empresas estão dispostas a remunerá-los de acordo com sua competência, experiência e formação. O mercado de trabalho está mais exigente quanto à formação, habilidades e competência dos profissionais. Porém, apenas alguns setores da economia estão dispostos a oferecer melhores salários. È o que vem ocorrendo, por exemplo, nas áreas de petróleo, energia, tecnologia e construção civil. As demais áreas exigem-se demais e paga-se de menos.

 Os baixos salários afastam bons profissionais. Em alguns casos, muitos profissionais estão tornando-se empreendedores, tornando-se prestador de serviço ou disputando vagas no setor público. Nos últimos anos, o salário do setor público está mais atraente do que no setor privado. Em 2011 foram 12 milhões de pessoas disputando vagas em concursos públicos em todo o território nacional. E a cada ano as disputas ficam acirradíssimas. Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que servidores públicos são mais bem remunerados que trabalhadores da iniciativa privada. De acordo com a pesquisa o salário médio foi de R$2.268,12 contra R$1.461,37 do serviço privado. Advogados e juristas, por exemplo, que trabalham as mesmas 40 horas semanais ganha no governo ou no setor militar 121% a mais do que seus colegas de formação empregados com carteira assinada no setor privado: R$ 10.097 contra R$ 4.578, em média. 

De acordo com o Diretor de Assuntos Salariais e Políticas Econômicas da Confederação dos Servidores Públicos do Brasil (CSPB), Lineu Neves Mazano, é necessário se fazer um estudo por função para que a pesquisa seja válida, excluindo os cargos comissionados que são contabilizados. ”Os salários dos servidores públicos não são altos, a pesquisa contabiliza também os cargos comissionados que são mais bem remunerados. Se for fazer uma pesquisa por função, principalmente do executivo onde está a maior massa de servidores, entre eles professores, policiais e médicos, o salário do servidor muitas vezes fica equiparado ao do setor privado”, explica. De 2009 para 2010, o salário médio da administração pública subiu de R$2.234,33 em 2009 para R$2.268,12 em 2010. No mesmo período que as empresas privadas tiveram um aumento de R$1.4478,91 para R$1.461,37. 

O governo emprega milhares de comissionados e esses possuem melhores salários que os servidores efetivos. Hoje, no setor público do Brasil, existem cerca de 25 mil cargos comissionados.O salário no serviço público baseia-se na escolaridade. Ou seja, em alguns cargos quanto maior o número de títulos acadêmicos maior o salário.  Em algumas regiões os salários dos funcionários públicos estão maiores que os trabalhadores da mesma ocupação no setor privado. Salário mais atraente e estabilidade têm atraído muitos profissionais para o setor público. Ressalta-se que, especialmente no setor público federal, existem diversas carreiras típicas de Estado, existentes em todos os países (com maior ou menor peso relativo dentro do setor público) e que se relacionam, por exemplo, à vigilância de fronteiras, à atuação do Judiciário, às forças de repressão interna (polícias e guardas civis ou militares), à área de Relações Externas e às  funções de arrecadação de impostos, sem contar as Forças Armadas. E são  justamente essas ocupações que pagam os melhores salários, tendo sido objeto de intensa disputa nos últimos concursos realizados pelo governo federal. 

A diferença de salário em favor do setor público se explica principalmente pelo fato de que, no setor público brasileiro, o perfil dos ocupados, segundo o grau de instrução é muito melhor que no setor privado; portanto, o salário médio do  setor público fica acima do salário médio do setor privado, pois este concentra  uma parcela muito grande de empregados com apenas o ensino fundamental  incompleto (27,7% em 2008) e mais 17,8% com apenas  até o fundamental completo – justamente os graus de instrução aos quais se relacionam os salários mais baixos. O aumento do salário médio do setor público se deve, em boa medida, ao aumento do número de contratações de profissionais  de nível superior, em concursos recentes, conforme o Ipea demonstrou em estudo recente sobre o tema (Comunicado da Presidência nº 19 - Emprego Público no Brasil: Comparação Internacional e Evolução, disponível no sítio do Instituto na internet, www.ipea.gov.br).

O êxodo de profissionais do setor privado para o setor público ocorre não somente apenas por questões salariais e estabilidade, mas condições de trabalho. Ambiente de trabalho altamente competitivo gera muito stress e cobranças por resultado. Suponha-se que você ganhasse o  salário R$4.000,00 para atuar no setor público ou privado. Qual você escolheria? Como diz a canção do Tim Maia ‘’Ora bolas, não me amole com esse papo, de emprego. Não está vendo, não estou nessa. O que eu quero? Sossego, eu quero sossego...’’ Ao invés das pessoas estarem debruçadas sobre os problemas das empresas, tentando descobrir como trazer mais lucros, clientes e solucionar problemas organizacionais as pessoas estão preferindo debruçar-se sobre os livros para ingressar no setor público. A vantagem de trabalhar no serviço público não reside apenas em salário e estabilidade, mas também trabalhar sem stress e cobranças excessivas por resultados. 

A escolha da carreira profissional é equivocada pelo mero desconhecimento da demanda do mercado de trabalho, das condições de trabalho e remuneração. Não é à toa que muitos jovens universitários estão se perguntando ser trainee ou funcionário público, eis a questão.

2 comentários:

  1. Concordo em parte com sua vião acerca do assunto. Considero que uma das principais causas dessa dicotomia se deve ao fato do ensino brasileiro ter abandonado durante vários anos o ensino técnico e ter focado apenas no ensino superior, mais voltado ao academicismo. Hoje sente-se a falta do técnico, que passou a ter melhores salarios que a maioria dos graduados sem experiência.

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  2. Prof. Sônia,

    Obrigada pela visita. O contraditório do ensino brasileiro é termos um ensino superior voltado ao academicismo(ciência e pesquisa), num país onde pouco se investe em pesquisa. No Brasil, para ser pesquisador precisa ser necessariamente um professor. Em muitos casos, o pesquisador acaba tornando-se professor por ''imposição''.

    O problema é como sair desse sistema de ensino ineficiente. Se o professor já era desvalorizado, agora então a tendência é piorar.

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